Diferenças entre edições de "Sacrifícios Taurinos"

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Revisão das 05h12min de 21 de junho de 2020

Em Monsaraz, Barrancos e muitas outras localidades da margem esquerda do Guadiana (cujos nomes se omite de modo a evitar a sanha persecutória e proibicionista dos anti-taurinos), bem como, até recentemente, no Penedo, aldeia localizada na Serra de Sintra (Morais, 1994/1995), as festas também incluem pelo menos uma vacada. Mas o que as distingue é o facto de nelas se praticar o sacrifício taurino (Capucha, 1994/1995). Esse sacrifício tem a sua génese em bodos aos pobres a que estavam obrigados os “homens bons” das terras, normalmente, por altura do Espírito Santo e noutras datas com significado religioso. Nesse sentido, como escreveu Pedro Romero de Solís (1995), a carne de toiro é uma carne divina. Num contexto em que aos pobres estava vedado comer carne de bovino, por carência de meios, a interdição era e é suspensa no dia da festa. Esta é, no fundo, outra forma de neutralizar o efeito diluidor dos laços comunitários que as desigualdades sociais geram, refazendo assim o sentido de coletivo humano das comunidades celebrantes do sacrifício.

O facto de se sacrificarem toiros bravos, e não de gado manso, liga-se à crença “quase mágica” acerca dos atributos genesíacos e de virilidade dos toiros bravos e da sua carne (Capucha, 2002).

Monsaraz

Na maioria dos locais onde estes sacrifícios se realizam, o toiro é largado num recinto fechado – em Monsaraz é na praça de toiros existente no Castelo – onde, depois de corrido como numa largada, é preso por uma corda que o submete e permite a morte através de um processo semelhante ao utilizado nos matadores até há muito pouco tempo: um “pontilheiro” com perícia secciona a espinal medula do animal, junto à nuca, matando-o instantaneamente. Morto o animal as pessoas rodeiam-no e tocam-no, levando as crianças a fazer o mesmo, como num agradecimento pela festa que proporcionou e pela refeição ritualizada que irá permitir. Um magarefe que previamente adquiriu a carne, ou agindo sob encomenda da Comissão de Festas, prepara a carcaça para que a carne seja vendida (já não é oferecida como teria sido em tempos de maior penúria coletiva). Numa rua ou largo da aldeia é acesa uma fogueira onde na própria noite se juntam as famílias e os amigos para assar e provar a carne adquirida, em muitos casos no único dia do ano em que se ingere carne de bovino.

Em Barrancos já não se acende a fogueira senão no Natal. Mas a carne dos toiros mortos nas festas em honra de Nossa Senhora da Conceição são cozinhados em todas as casas – privadas e restaurantes – segundo a popular receita de “carne de toiro com tomate”. Esta está porém longe de ser a única diferença em relação aos casos que temos vindo a referir.

Em primeiro lugar, o ritual tauricida decorre durante três dias, a 29, 30 e 31 de agosto, depois da procissão no dia 28, que marca o início de uma “fêra” (feira) frenética, intensa, disruptiva, no sentido em que cria um período de exceção na vida da vila, bem exemplificado pelo facto de os pais se despedirem da família até ao fim da festa. Nos dias 29 e 30 de manhã são largados num dos extremos da vila dois toiros em cada dia e um de cada vez. O encerro nas jaulas colocadas no Largo principal, frente à Igreja, decorre com cada toiro percorrendo uma rua íngreme até irromper no recinto vedado com os “tabuados”, onde estão localizados dois pequenos curros, semelhantes às jaulas de transporte, mas neste caso fixos. Segundo uma técnica específica cada um dos toiros é amarrado com uma corda e fechado num dos dois curros.

Os tabuados, totalmente construídos em madeira e com uma estrutura e um método de construção únicos no mundo, foram montados dias antes pela Câmara Municipal. Suportados por pilares unidos por barrotes transversais que servem de tranqueiras, são encimados por bancadas cuja ocupação, à exceção de uma zona reservada a convidados e à banda de música, é paga. Quem fica por baixo delas, espreitando entre as tranqueiras ou arriscando colocar-se dentro do recinto escapando apenas quando o toiro se acerca, participa gratuitamente. Noutros tempos, os tabuados eram mandados construir pelos lavradores, que nas bancadas colocavam os seus convidados e os familiares dos assalariados permanentes das suas herdades. Como em muitas outras coisas, também neste aspeto o poder autárquico substitui agora antigo poder do latifúndio.

Depois de encerrados os toiros é tempo de almoçar e descansar, porque as noites são de festa carregada.

Barrancos

A meio da tarde todos se dirigem para o largo, para a tourada. Esta inicia-se, como nas corridas formais em Espanha, com o passeio dos toureiros em apresentação ao público, precedidos pelos membros da Comissão de Festas que os contratou, do mesmo modo que tratou e trata de todos os aspetos da organização da “fêra”. O cornetim toca para a saída do primeiro toiro (tecnicamente falando, trata-se de um novilho adquirido a uma ganadaria de prestígio), que é lidado de capote, depois bandarilhado e toureado de muleta pelo primeiro dos dois matadores de toiros contratados e respetiva quadrilha de bandarilheiros. No fim da faena é sua função matar o toiro a estoque (a espada de matar toiros). O agrado ou desagrado do público resulta do nível do desempenho, destacando-se claramente a eficácia no uso da espada, podendo dar origem à concessão de uma orelha, duas orelhas ou estas duas e rabo, sempre a pedido do público e por decisão do “diretor de corrida” (um aficionado de prestígio que a Comissão de Festas convida para a função). Um mau desempenho dá origem a fortes broncas, chegando-se por vezes perto da agressão ao toureiro infeliz ou incompetente na sua atuação.

O mesmo se passa com o segundo toiro e no dia seguinte com outros dois toiros. No terceiro dia, a 31 de agosto, para além de um novilho corrido de modo semelhante aos primeiros quatro dos dias anteriores, corre-se também uma vaca. Mas esta não é lidada por um profissional, mas sim pelos aficionados, em particular os jovens, que a recortam, citam e pegam de caras. Na sequência de uma dessas pegas a vaca é introduzida na “sociedade dos ricos”, uma coletividade situada num dos cantos da praça, na diagonal de uma outra designada “sociedade dos rapazes”. Após as peripécias provocadas pelo animal nas instalações da associação, volta à praça para ser de novo pegada e morta com um golpe de “chopa”.

Barrancos

Esta festa decorreu de forma clandestina desde a proibição dos toiros de morte em Portugal pelo regime fascista, sendo porém tolerada pelas autoridades que “fechavam os olhos” ao que se passava, de modo que nenhum autarca, agente policial ou outra pessoa alguma vez testemunhara a morte dos toiros, por se ausentarem no momento da estocada, de modo a não poderem depor em Tribunal anualmente convocado para averiguações. Até que em 1999, por ação de uma associação animalista a que deu seguimento um Juíz de um Tribunal do Porto, foi emitida uma providência cautelar no sentido de impedir a realização das touradas. Essa proibição seria recebida como um golpe fatal no “orgulho” e na identidade barranquenha, pelo que todo o povo, unanimemente (mesmo os que não gostam da festa viram o ataque como um abuso intolerável), decidiu desobedecer e lutar determinadamente pelo seu direito. Durante vários anos o “caso de Barrancos” ocupou o palco mediático principal do país, levando à generalização do debate em torno dos direitos culturais, entre muitos outros tópicos que esta festa, como “fenómeno social total”, envolve. Até que uma iniciativa do Presidente da República gerou a alteração da lei, deixando a morte do toiro nas arenas de ser proibida em Portugal, desde que corresponda a uma tradição ininterrupta com mais de 50 anos. Em contrapartida, a mesma lei proibiu a “sorte de varas” que, por essa altura, era praticada com alguma frequência nas Praças de toiros de Vila Franca de Xira, Moita do Ribatejo e Angra do Heroísmo. E assim prossegue Barrancos, ano após ano, a celebrar efusiva e entusiasticamente o seu título de única localidade portuguesa onde os toiros são mortos a estoque, na arena.


REGISTOS GRÁFICOS



Cartazes de Barrancos (2009-2019)
Ano Festas de N. S.ª da Conceição Festejos Taurinos Curro de Touros
2019
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2018
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2017
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2016
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2015
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2014
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2013
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2012
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2011
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2010
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2009
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Cartazes de Monsaraz
2019 2018 2017




Registos Fotográficos


Registos Videográficos


Bibliografia

  • Capucha, Luís (1994/1995). O Espelho Quebrado: versus e reversus nas tauromaquias populares. Mediterrâneo (Tauromaquias Populares e Outros Estudos), 5/6, pp. 33-56.
  • Capucha, Luís (2002). Barrancos na ribalta, ou a metáfora de um país em mudança. Sociologia, problemas e práticas. 39, pp. 9-38.
  • Capucha, Luís e Marco Gomes (2016). "Tauromaquia, Cultura com Sabor de Festa". In LMEC - CRIA (Ed.), Congresso Ibero Americano Património, suas Matérias e Imatérias, Lisboa.
  • Morais, António Manuel (1994/1995). A corrida à corda. Tradição centenária. Mediterrâneo (Tauromaquias Populares e Outros Estudos), 5/6, pp. 57-64.
  • Solís, Pedro Romero de (1995). La dimensión sacrificial de la Tauromaquia Popular. Information sur les Sciences Sociales. Paris: Maison des Sciences de l’Homme et École Pratique des Hautes Études.