Diferenças entre edições de "Cavaleiro Tauromáquico"
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• Sorte de frente | • Sorte de frente | ||
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Cavalo e toiro estão na mesma linha, em direções opostas para o zénite da sorte a que se chama “reunião”. Preferencialmente, deve ser o toiro a arrancar primeiro, saindo depois o cavaleiro ao seu encontro. O mais perto possível da reunião, o cavaleiro abre ligeiramente o cavalo para a esquerda, dando a espádua do cavalo ao toiro. Humilha este para o colher, mas o cavalo furta-se permitindo ao cavaleiro cravar a bandarilha que traz na sua mão direita. | Cavalo e toiro estão na mesma linha, em direções opostas para o zénite da sorte a que se chama “reunião”. Preferencialmente, deve ser o toiro a arrancar primeiro, saindo depois o cavaleiro ao seu encontro. O mais perto possível da reunião, o cavaleiro abre ligeiramente o cavalo para a esquerda, dando a espádua do cavalo ao toiro. Humilha este para o colher, mas o cavalo furta-se permitindo ao cavaleiro cravar a bandarilha que traz na sua mão direita. | ||
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• Sorte ao Piton Contrário | • Sorte ao Piton Contrário | ||
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As posições iniciais são idênticas, só que antes do encontro o cavalo simula ir para a direita para sair depois pela esquerda. | As posições iniciais são idênticas, só que antes do encontro o cavalo simula ir para a direita para sair depois pela esquerda. | ||
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• Sorte à Tira | • Sorte à Tira | ||
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Cavalo e toiro não estão na mesma linha, mas em paralelo. Quando arrancam, ao passarem um pelo o outro, o cavaleiro crava a bandarilha | Cavalo e toiro não estão na mesma linha, mas em paralelo. Quando arrancam, ao passarem um pelo o outro, o cavaleiro crava a bandarilha | ||
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• Sortes por dentro | • Sortes por dentro | ||
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É um recurso para os toiros que se recusam a investir por mansidão e que se colocam junto à trincheira, porque sentem o conforto daqueles terrenos. O cavaleiro conduz a montada para passar entre o toiro e a trincheira, deixando o ferro. | É um recurso para os toiros que se recusam a investir por mansidão e que se colocam junto à trincheira, porque sentem o conforto daqueles terrenos. O cavaleiro conduz a montada para passar entre o toiro e a trincheira, deixando o ferro. | ||
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• Sortes em redondo | • Sortes em redondo | ||
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Com a montada o cavaleiro executa uma espécie de carrossel ou rodeo à volta do toiro e, apertando as voltas, logra colocar a bandarilha, normalmente das mais curtas. | Com a montada o cavaleiro executa uma espécie de carrossel ou rodeo à volta do toiro e, apertando as voltas, logra colocar a bandarilha, normalmente das mais curtas. | ||
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• Sorte de violino | • Sorte de violino | ||
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O cavaleiro aborda o toiro em círculo pela esquerda e ao passar pela frente do toiro, crava a bandarilha que tem na mão direita, sendo que para o fazer tem de cruzar o braço por forma a poder cravar a bandarilha, como se “tocasse violino”. | O cavaleiro aborda o toiro em círculo pela esquerda e ao passar pela frente do toiro, crava a bandarilha que tem na mão direita, sendo que para o fazer tem de cruzar o braço por forma a poder cravar a bandarilha, como se “tocasse violino”. | ||
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• Sorte a sesgo | • Sorte a sesgo | ||
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Utiliza-se quando o toiro, geralmente por se negar a investir, se coloca perto da trincheira, negando-se a ir para outros terrenos mais de fora. Nestas circunstâncias, o cavaleiro coloca-se do lado esquerdo do toiro também em tábuas, tentando depois passar pela frente do toiro. Quando isso acontece, o toiro tem uma pequena investida para o cavalo, o que é normalmente suficiente para o cavaleiro colocar o ferro. | Utiliza-se quando o toiro, geralmente por se negar a investir, se coloca perto da trincheira, negando-se a ir para outros terrenos mais de fora. Nestas circunstâncias, o cavaleiro coloca-se do lado esquerdo do toiro também em tábuas, tentando depois passar pela frente do toiro. Quando isso acontece, o toiro tem uma pequena investida para o cavalo, o que é normalmente suficiente para o cavaleiro colocar o ferro. | ||
Revisão das 13h14min de 22 de julho de 2020
O TOUREIO A CAVALO EM PORTUGAL
Francisco Morgado
Jornalista taurino
I – Nota Prévia
O gosto comum pela festa dos toiros que une os portugueses tem um interveniente principal e imprescindível. Estamos obviamente a falar da espécie zootécnica denominada Toiro Bravo.
Foi sempre com a sua participação e cumplicidade que o homem foi construindo, aprimorando e desenvolvendo esta forma de arte ímpar, que nos identifica claramente como povo da denominada Ibéria. Foi criando estes animais, que inicialmente tirou do seu estado selvagem na natureza, foi lutando pela sua seleção e progredindo na sua genética, que conseguiu trazer até ao século XXI um animal que – a não ser assim – há muito que faria parte da lista das raças extintas da face da Terra.
Que fique, portanto, bem explícito que o toureio a cavalo não poderá existir sem a presença do toiro bravo, como o inverso também será verdadeiro.
II – Resumido enquadramento Histórico
Apenas uma muito breve referência histórica para sustentar a antiguidade da existência deste gosto dos lusitanos pelos jogos com toiros, aludimos a um escrito datado de 1258 que foi recolhido pelo Mestre historiador Alexandre Herculano, onde se refere que D. Sancho I, segundo rei de Portugal, tinha uma quinta nos arredores do paço em Lisboa, “onde corria toiros e cavalos e outros recreios”. Eram então tempos em que o desafio aos toiros se fazia mais como exercício de caça e onde os nobres mostravam “destreza, valor e bizarria”.
A seu tempo, três séculos mais tarde, porque na fita do tempo tudo é muito mais lento, a lança de combate é abandonada e o jogo com os toiros começa a ter os incipientes laivos de desenvolvimento artístico, ao aparecerem os primeiros tratados com a descrição das sortes e as bases primárias que iriam levar ao aperfeiçoamento do ensino do cavalo para o toureio.
Como sempre acontece em todas as formas de atividade artística, os progressos de todos os intervenientes nessa arte têm um desenvolvimento paralelo e harmónico, pelo que foram sendo encontradas soluções para todas as coisas novas que foram surgindo, resultado do estudo constante do homem neste processo, como não poderia deixar de ser.
III – O Toureio a Cavalo em Portugal
É exclusivamente o Toureio a Cavalo em Portugal que queremos abordar neste texto, sem que isso signifique esquecer que Espanha, o outro país ibérico desta meseta tão sui generis, tem igualmente alguma preferência pelo toureio a cavalo, que ali se denomina de rejoneo.
A lide a cavalo na atualidade
Não é possível falar da lide a cavalo na atualidade nas corridas de toiros sem deixar bem claro que esta arte é bastante antiga, e para que melhor se entenda, que existe toda uma evolução que, em fase posterior será possível detalhar.
Por ora, digamos apenas que com o advento das novas ideias – a República foi instaurada em Portugal em 1910 – a tourada, que sempre foi conotada com os hábitos da fidalguia, vai passar a depender quase exclusivamente de empresas comerciais e de cavaleiros oriundos de classes mais populares que, rapidamente profissionalizaram o toureio.
Vitorino Avelar Fróis consagra-se definitivamente nos primeiros alvores do novo século e dele se disse que havia herdado a requintada arte do Conde de Castelo Melhor e a audácia do Conde de Vimioso e de D. João de Menezes. Chegou a ter a sua ganadaria própria e a inovação do seu toureio era tal que foi acusado de se exibir com os seus próprios toiros ensinados para o efeito!
Fernando de Oliveira e José Casimiro constituíram a primeira parelha de cavaleiros rivais, rivalidade essa que se propagava às bancadas entre fervorosos partidários. Tudo seria interrompido na tarde de 12 de Maio de 1904, na praça de toiros do Campo Pequeno, onde o primeiro viria a encontrar a morte, ao ser violenta e brutalmente colhido por um toiro de nome Ferrador, pertencente à ganadaria do Conde de Castelo Melhor.
Segue-se um período obscuro, de pouco luzimento, onde imperava o toiro corrido, tudo ao sabor da nova república e dos tumultos populares que provocava, para em 1925, primeiro Simão da Veiga e quase seguidamente Simão da Veiga Júnior, António Luís Lopes, João Branco Núncio e D. Ruy da Câmara, virem dar um novo fôlego e alento ao espetáculo.
A partir daqui tudo corre mais depressa, ao ritmo alucinante do novo século, pleno de inovações e desenvolvimento. Sem abordarmos detalhadamente o percurso extenso e brilhante dos cavaleiros de então, não deveremos deixar de salientar que pertenceu a João Núncio o mérito de, ao impor nas corridas o toiro puro (o toiro é lidado apenas uma vez e depois é sacrificado, entrando a sua carne no consumo humano) contribuindo, de maneira decisiva, para o salto qualitativo da lide equestre, tal como a conhecemos nos nossos dias.
Citar de frente e cravar ao estribo e depois colocar o toiro para a sorte seguinte, são procedimentos articulados que ganharam expressão máxima e disso foram intérpretes muitos e muitos cavaleiros.
Embora correndo o risco de que citar nomes é também omitir, aqui se deixa constância de cavaleiros como D. Francisco de Mascarenhas, Rosa Rodrigues, Dr. Fernando Salgueiro, David Ribeiro Telles e tantos outros que foram verdadeiros paradigmas do toureio equestre moderno.
Com José Mestre Batista, nos anos sessenta, vive-se a época de oiro do toureio a cavalo, sobretudo porque Batista encontrou uma nova forma de executar o toureio, encurtando os terrenos de cite, fazendo reuniões de forma muito ajustada e, sobretudo desenvolvendo um ataque ao toiro ao piton contrário, o que aumentou o risco e valorizou o momento. Samuel Lúpi, Luís Miguel da Veiga e Manuel Jorge de Oliveira (todos ainda entre nós) e José João Zoio (prematuramente falecido) ficam como paradigma destes tempos.
A geração seguinte aporta-nos nomes como por exemplo os de João Moura, João e António Ribeiro Telles, Joaquim Bastinhas, Rui Salvador e Paulo Caetano que, embora fiéis aos princípios clássicos do toureio, vão introduzindo nuances nas lides, mesmo quando parece que tudo já está inventado.
Vive-se agora um tempo onde o andar com o toiro por detrás, ou ladeando, alcança grande espetacularidade. Diga-se, porém, em abono da verdade, que o momento zénite que é o de cravar o ferro continua a ser da maior importância, embora se reconheça que hoje há um menor entendimento técnico das regras, pois o publico atual é muito massificado e heterogéneo.
Hoje vive-se a corrida-espetáculo, onde realmente as montadas dos cavaleiros chegaram a um grau de apuro excelente, num escalão de ensino tão alto que transformou as montadas em vedetas das corridas. Com efeito, os andamentos dos cavalos no encontro com o toiro devem ser efetuados de forma esteticamente agradável, sem que o cavalo sofra toques do toiro, mantendo-se a harmonia entre cavalo e cavaleiro.
A Corrida à Portuguesa com a lide de seis toiros tem hoje uma estrutura que se baseia na competição direta dos cavaleiros entre si, na disputa para o melhor desempenho no espetáculo, podendo ser constituída das formas seguintes:
- Dois Cavaleiros em mano-a-mano lidando três toiros cada um;
- Três Cavaleiros lidando dois toiros cada um (esta é a forma clássica);
- Quatro Cavaleiros, lidando cada um toiro e depois em pares lidando os dois seguintes;
- Seis Cavaleiros, lidando um toiro cada um;
- Um cavaleiro lidando seis toiros em solitário.
No final da atuação dos cavaleiros entram os forcados. Mas sobre eles e pela sua importância na corrida à portuguesa, se detalhará a sua ação em trabalho autónomo.
Principais sortes na atualidade do toureio a cavalo
O toiro deve ser lidado pelo cavaleiro, ao conduzi-lo para o sítio da arena que considerar mais idóneo, deixando que o toiro persiga a montada por detrás, ou ladeando com o cavalo consentindo a investida perto do estribo.
Uma vez colocado o toiro, o cavaleiro inicia o denominado “cite”, que não é mais do que chamar pela voz ou por pequenos movimentos com o cavalo para que o toiro arranque ao seu encontro.
• Sorte de frente
Cavalo e toiro estão na mesma linha, em direções opostas para o zénite da sorte a que se chama “reunião”. Preferencialmente, deve ser o toiro a arrancar primeiro, saindo depois o cavaleiro ao seu encontro. O mais perto possível da reunião, o cavaleiro abre ligeiramente o cavalo para a esquerda, dando a espádua do cavalo ao toiro. Humilha este para o colher, mas o cavalo furta-se permitindo ao cavaleiro cravar a bandarilha que traz na sua mão direita.
Obs.: Todas as restantes sortes são uma variação deste princípio fundamental que é a sorte de frente.
• Sorte ao Piton Contrário
As posições iniciais são idênticas, só que antes do encontro o cavalo simula ir para a direita para sair depois pela esquerda.
• Sorte à Tira
Cavalo e toiro não estão na mesma linha, mas em paralelo. Quando arrancam, ao passarem um pelo o outro, o cavaleiro crava a bandarilha
• Sortes por dentro
É um recurso para os toiros que se recusam a investir por mansidão e que se colocam junto à trincheira, porque sentem o conforto daqueles terrenos. O cavaleiro conduz a montada para passar entre o toiro e a trincheira, deixando o ferro.
• Sortes em redondo
Com a montada o cavaleiro executa uma espécie de carrossel ou rodeo à volta do toiro e, apertando as voltas, logra colocar a bandarilha, normalmente das mais curtas.
• Sorte de violino
O cavaleiro aborda o toiro em círculo pela esquerda e ao passar pela frente do toiro, crava a bandarilha que tem na mão direita, sendo que para o fazer tem de cruzar o braço por forma a poder cravar a bandarilha, como se “tocasse violino”.
• Sorte a sesgo
Utiliza-se quando o toiro, geralmente por se negar a investir, se coloca perto da trincheira, negando-se a ir para outros terrenos mais de fora. Nestas circunstâncias, o cavaleiro coloca-se do lado esquerdo do toiro também em tábuas, tentando depois passar pela frente do toiro. Quando isso acontece, o toiro tem uma pequena investida para o cavalo, o que é normalmente suficiente para o cavaleiro colocar o ferro.
Nota: Apenas as três primeiras sortes estão consideradas como sendo as fundamentais para o denominado toureio equestre clássico. As restantes são movimentos de recurso, mas indispensáveis para utilizar nos toiros que têm poucas condições de investida para as montadas, ou que são declaradamente mansos, recusando-se mesmo, em alguns casos, a investir.
Alguns apontamentos do regulamento taurino e
Estrutura para uma lide a cavalo
Todos os espetáculos têm uma direção que superentende todos os atos da corrida, orientando as suas decisões pelo cumprimento do disposto no Regulamento Tauromáquico que está em vigor. Um diretor de corrida, que é nomeado pela IGAC (Inspeção Geral das Atividades Culturais – que depende organicamente do Ministério da Cultura) um médico veterinário escolhido entre os quadros da mesma instituição, um graduado da força policial presente no recinto e um cornetim que faz diversos toques, que não são mais do que ordens sonoras executadas a mando do diretor da corrida, encarregam-se de dirigir o espetáculo.
A idade e o peso dos toiros a lidar dependem do tipo de espetáculo anunciado e da categoria da praça onde o mesmo se vai realizar. Os tipos de espetáculo podem ir das corridas de toiros até às variedades taurinas, e a categoria das praças em Portugal classificam-se em 1.ª, 2.ª e 3.ª categoria.
O tempo de lide de cada toiro está regulamentado entre os 10 e os 13 minutos, com o primeiro aviso a ocorrer ao fim de 10, contados a partir da colocação do primeiro ferro, aos 12 o segundo aviso e aos 13 o terceiro e derradeiro aviso. O regulamento determina que os ferros compridos possam ter até 140 centímetros, os curtos até 90 e os de palmo até 35 centímetros.
Em todos eles os bicos terão de ter até um máximo de 8 centímetros, podendo levar um ou dois arpões, com as dimensões máximas de 4 centímetros de comprimento por 2 de largura.
Depois de feita a lide a cavalo, o toiro é pegado pelos forcados e recolhido, não havendo assim a morte do toiro na arena, como se realiza em Espanha.
No caso do toureio a cavalo a ação inicia-se com a entrada do cavaleiro na arena, que cumprimenta a direção da corrida, iniciando em seguida movimentos com a sua montada, com a intuito de a ambientar com o piso da arena, com o ruído dos espectadores e até com a luz ambiente, o que pode durar um ou dois minutos.
Em seguida, com um toque específico, é ordenada a saída do toiro.
O cavaleiro coloca primeiro dois ou três ferros compridos e depois quatro ou cinco ferros curtos, podendo, ou não, recorrer aos ferros de palmo para terminar a lide. Na verdade, o regulamento não impõe um número máximo de ferros, mas sim um tempo, a que já aludimos, pelo que o cavaleiro tem de o gerir de acordo com o diagrama da lide que está a executar. Porém, há um axioma que se tem afirmado como imutável ao longo do tempo. A lide, por mais pensada e delineada que tenha sido, acaba sempre por ter de se adaptar às características de cada toiro, atendendo ao seu grau de acometimento e aos terrenos que vai elegendo para estar ao longo da lide. É assim indispensável que o cavaleiro tenha um desenvolvido conhecimento sobre estas matérias, para poder a todo o momento ir analisando o seu “inimigo”, adaptando-se aos diferentes estados por que ele vai passando ao longo dos poucos minutos em que estão em contato.
Em todas as sortes, sejam elas mais clássicas ou mais espetaculares, os aficionados valorizam o trabalho do cavaleiro, segundo o arranjo do cavalo, o domínio das sortes e os andamentos da sua montada, que devem ser os mais suaves possíveis. As denominadas “ajudas à monta” pernas, pés e mãos nas rédeas, devem ser quase impercetíveis, por forma a manter o porte e a elegância do cavaleiro.
O Traje e os Arreios à Portuguesa
O traje dos nossos cavaleiros tauromáquicos remonta ao século XVIII e vem até aos dias de hoje com poucas alterações, sendo na realidade uma cópia da moda francesa ao tempo, mais propriamente a dos cavaleiros do picadeiro real de Versailles, nos tempos faustosos de Luís XV.
Na cabeça um chapéu de três bicos, o tricórnio, sempre de cor preta e adornado com plumas de avestruz. Os cavaleiros nobres colocavam aqui o seu brasão. Atualmente usa-se como enfeite um escudo de fantasia dourada ou prateada. Como reminiscência da antiga cabeleira que se atava com um laço, foi este colocado nas costas da casaca, à altura dos ombros.
A camisa deverá ser de renda ou de folhos, mas os tempos impuseram que estes se transferissem para o colete e para os punhos das mangas na casaca.
No bolso direito está um postiço, também em renda, simulando um lenço.
A casaca será de seda ou de veludo, debruada com galões dourados ou prateados ou, pretendendo-se mais rica, a fio de ouro ou prata. Não havendo hoje cores fixas, continuam a dominar os tons de azul, vermelho, verde ou branco, mas é o gosto individual que aqui predomina, desde os tons fortes e quentes até às cores claras e pastéis.
Os bordados devem estender-se pela orla da casaca, à frente, à volta e contornando a racha que tem atrás.
Os comprimentos das casacas têm evoluído porque, se em tempos mais antigos chegavam quase às meias, hoje são mais curtas e situam-se à altura das coxas.
Os botões do colete e da casaca são de filigrana de ouro ou prata, frequentemente com o monograma do cavaleiro.
O calção, que foi inicialmente de seda, hoje é de malha justa à perna, por se tornar mais confortável e elástico. É de cor clara, com três botões por altura do meio da coxa.
As meias, de cor branca, devem ultrapassar os joelhos, fazendo uma dobra acima da bota.
Estas são em calfe ou verniz preto, com salto de prateleira, onde se colocam as esporas à portuguesa, com correia e fivela quadrada.
Este traje é único no mundo, enquadra-se perfeitamente dentro da policromia do nosso espetáculo e constitui sempre motivo de admiração a quem não está habituado a vê-lo.
Tal como aconteceu com o traje, também o arreio dos cavalos tem as suas origens importadas da corte de Luís XV. Ainda que as selas tenham tido com o decorrer dos tempos algumas alterações, de uma forma geral conservaram a sua aparência inicial. São normalmente cobertas de camurça, com a parte exterior dos arções em couro, com pregos de cabeça cónica, amarelos ou brancos, fazendo desenhos geométricos. A sela usa um peitoral e rabicha e, atrás, sob o rim do cavalo, um xairel com pelo. Para a sua sustentação usa-se a cilha e a contra cilha. Os estribos são de caixa, feitos em madeira, com ferragens que os adornam, mais ou menos trabalhados, consoante a sua antiguidade.
A cabeçada tem uma só faceira, com focinheira e cingegola, que sustém como embocadura um freio simples, e utiliza uma só rédea. A cabeçada é ornada com fivelas, normalmente de forma quadrada e em metal branco. Este será o arreio tipo, para utilizar durante a lide.
No ato das cortesias, que em Portugal têm uma tradição rica em adornos do cavalo, cobre-se então a sela com um veludo bordado a ouro ou prata e usa-se um guarda-perna e xairel feito com o mesmo tecido e desenhos. O peitoral, a rabicha e a cabeçada são enriquecidos com fivelas de metal nobre, o mesmo acontecendo com os estribos.
Na cachaceira da cabeçada coloca-se um penacho de penas coloridas, normalmente a condizer com os veludos aplicados.
Pendente sobre a rabicha, coloca-se um laço de seda com fitas pendentes que cobrem as crinas da cauda do cavalo. As crinas do pescoço usam-se entrançadas com fitas de duas cores fazendo pequenos foles de belo efeito visual. Nas cortesias para corridas de gala à antiga portuguesa os cavalos são apresentados à mão, pelo que devem então ter sobre o dorso uma coberta, que tem o nome de teliz, que tapa toda a sela.
A Corrida à Portuguesa no Mundo
Esta forma única de lidar os toiros bravos, e sobretudo a presença dos forcados, sempre despertou curiosidade no mundo, mesmo aquele que que nunca tinha visto este espetáculo ao vivo, constituindo a sua apresentação um verdadeiro sucesso.
Na Europa, para além de Espanha e França, a corrida à portuguesa já esteve na Grécia, sendo os espetáculos efetuados em pavilhões cobertos com o recinto adaptado a uma arena.
No México, Colômbia e Venezuela, já foram organizadas várias corridas à portuguesa, com cavaleiros portugueses alternando com mexicanos ou venezuelanos e forcados portugueses e também mexicanos.
Mas a corrida à portuguesa esteve também na Indonésia – num estádio com lotação para 50.000 pessoas – e em Macau, onde foi construída de propósito uma praça, ao lado do Casino Lisboa, toda feita em bambu e com capacidade para 5.000 pessoas.
Nos Estados Unidos, estado da Califórnia, existem várias praças fixas. Criam-se ali toiros bravos e realizam-se em cada ano mais de 25 corridas de toiros. No Canadá construiu-se recentemente uma Praça de Toiros fixa, ali se realizando anualmente três ou quatro corridas, com a presença de cavaleiros e forcados portugueses.
Os trajes dos cavaleiros, o arreio dos cavalos e sobretudo a presença dos forcados, constituíram em todas estas manifestações um grande polo de curiosidade por parte das assistências, mobilizando igualmente a atenção generalizada dos meios de comunicação, escrita, falada e televisada, que lhes deram a maior das coberturas mediáticas.
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